você me julga maléfica. restringe, então, as minhas possibilidades, para que eu caiba no seu setor mental reservado à remoeção de misérias. sou isso, sua miséria, sua porcaria. mais do que isso, aliás – você ainda consegue se convencer que, se eu estiver descrita como a amante-classe-média-década-de-50-do-século-passado nessa sua mentezinha culpada, minha presença será aceita como um bônus trabalhista. porque você se esforça, trabalha para caralho. sustenta a sua família e pode trepar meia dúzia de vezes comigo. a boboca aqui, acessível e moldável. a geleca. que aceita os argumentos de não termos futuro. mas entre ser essa aí, a geleca, e ser uma esposa, há muitas variantes. não quero nenhum dia-a-dia com você. não lhe suportaria nesse ritmo. nem você me quer com intenções eternas, eu sei. o que não elimina as chances de um encontro menos provável. uma surpresa de vez em quando. a educação de notar que não sou uma amante. mas não, você quer a amante. esse mito. esse símbolo. que cabe em sua matemática suburbana. e o mais incrível é que continuo aceitando. eu é que devo rever minhas propostas. já que nem quero que você mude. iria revirar os fatos, e eu tenho coisas a fazer. tenho livros que não li. filmes que não vi. negros com quem não transei. se escrevo estas cartas, que não te dou, é porque gostaria de entender como um homem com o seu talento pode ser tão modesto em suas perspectivas de afeto. afeto e paixão cabem numa mesma mulher. a esposa já pode dar o seu cuzinho, mesmo sendo a mãe dos seus eventuais filhos. não é mais só a puta que fica de quatro. ficar de quatro não degrada ninguém, você precisa rever os seus paradigmas. vocês todos. e eu preciso entender por que persisto nessa bobajada. beijos. e.- Fernanda Young in Aritmética
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