quarta-feira, 4 de agosto de 2010

reli uma carta que não te mandei. e agora, tentando iniciar esta outra, tendo a começar da mesma maneira que a anterior. pedindo que você me desculpe. engraçado isso. acho que todas as cartas que escrevi tinham esse requisito introdutório: desculpas. mais ou menos assim: “sei que tenho esse defeito e lhe peço perdão”. ou: “ontem, quando quis muito você, acho que fui desastrada e fiz tudo errado – é que eu estava com muitas saudades”. ou: “desculpa mesmo, mas você é um babaca”. bom, já reconhecido esse vício de estrutura, e essa minha culpa, levo a carta para onde interessa: esse nosso relacionamento. tóxico. repetitivo. virtual aborto. eu responsabilizo você por essa mesmice. você, e esse modelo de vida tatuado em seu corpo. no qual uma amante é uma amante. à moda antiga, feito um prato. que você pode encomendar e receber domicílio. sem sequer pagar a conta; você é daqueles que penduram. que têm crédito no estabelecimento. eu? eu sou a quentinha. a comida que não é paga. o assento disponível. tornei-me uma amancebada. e num projeto programado por você, pelas suas contingências. os seus tempos. à sua conveniência e satisfação. no início, devo confessar, essa repetição me soou excitante. por ser você tão clichê, pensei que fosse gozação sua. fazendo-se um personagem de uma perversão qualquer. com o decorrer da coisa, porém, percebi que você acredita neste padrão. essa sua conduta, cheia de previsões necessárias, para você poder manejar as suas pequenas culpas. você é absolutamente culpado. e culpado por estar ao meu lado, transformando-me assim na personificação do indevido. sou tudo o que é errado, o pecado, o contra indicado. aquilo que deveria ser logo extirpado, ou tratado como um câncer.
você me julga maléfica. restringe, então, as minhas possibilidades, para que eu caiba no seu setor mental reservado à remoeção de misérias. sou isso, sua miséria, sua porcaria. mais do que isso, aliás – você ainda consegue se convencer que, se eu estiver descrita como a amante-classe-média-década-de-50-do-século-passado nessa sua mentezinha culpada, minha presença será aceita como um bônus trabalhista. porque você se esforça, trabalha para caralho. sustenta a sua família e pode trepar meia dúzia de vezes comigo. a boboca aqui, acessível e moldável. a geleca. que aceita os argumentos de não termos futuro. mas entre ser essa aí, a geleca, e ser uma esposa, há muitas variantes. não quero nenhum dia-a-dia com você. não lhe suportaria nesse ritmo. nem você me quer com intenções eternas, eu sei. o que não elimina as chances de um encontro menos provável. uma surpresa de vez em quando. a educação de notar que não sou uma amante. mas não, você quer a amante. esse mito. esse símbolo. que cabe em sua matemática suburbana. e o mais incrível é que continuo aceitando. eu é que devo rever minhas propostas. já que nem quero que você mude. iria revirar os fatos, e eu tenho coisas a fazer. tenho livros que não li. filmes que não vi. negros com quem não transei. se escrevo estas cartas, que não te dou, é porque gostaria de entender como um homem com o seu talento pode ser tão modesto em suas perspectivas de afeto. afeto e paixão cabem numa mesma mulher. a esposa já pode dar o seu cuzinho, mesmo sendo a mãe dos seus eventuais filhos. não é mais só a puta que fica de quatro. ficar de quatro não degrada ninguém, você precisa rever os seus paradigmas. vocês todos. e eu preciso entender por que persisto nessa bobajada. beijos. e.

- Fernanda Young in Aritmética

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