quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eu chego lá


chego lá aonde? é o que eu sempre me pergunto. lá é para a esquerda, é para a direita, lá é longe? lá faz frio? lá tem muita gente?
não. lá é um lugar quase deserto. aproximando-se pela estrada, que é estreita, mal iluminada e cheia de buracos, você avista a placa "bem-vindo a Lá". chegando lá, você descobre que não era nada do que você imaginava, que as fotos que o agente de viagem lhe deu foram retocadas e que há pouca coisa para se fazer à noite.
você sonhou muito em chegar lá. suas primeiras recordações da infância são da voz do seu pai dizendo "este garoto ainda vai chegar lá". você estudou para isso. você trabalhou feito um condenado, você nunca deu dois passos na vida sem que o objetivo fosse chegar lá. aí você chega e descobre que lá é uma abstração.
lá nunca é aqui. você pensa que chegou lá e ainda está aqui. você bem que tenta reverter a situação, iludindo-se ao ponto de chegada: "pessoal, estou orgulhoso de ter chegado até aqui". as pessoas olham para você com uma expressão desconfiada no rosto. chegar até aqui? mas aqui nós também estamos, grande coisa. quero ver você chegar lá.
lá pode ser uma casa num condomínio fechado. lá pode ser um cargo de confiança. lá pode ser dois filhos saudáveis. lá é o seu desejo de consumo ou sua realização pessoal. um lugar que todo mundo quer alcançar. uns chegam lá. mas, chegando, descobrem que não é lá que gostariam de se instalar. lá é a morte dos seus sonhos.
você chegou lá como prefeito e descobre que queria ser governador. você chegou lá casado e descobre que quer recuperar a sua liberdade. você chegou lá cheio de dinheiro e descobre que não tem tempo para aproveitá-lo. você chegou lá no seu peso ideal, e agora? agora é preciso ir até lá onde você vai aprender a ser feliz sem refrigerante.
chegando lá, descobre-se que lá sempre fica em outro lugar: adiante.

- Martha Medeiros in Non-stop

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