domingo, 21 de novembro de 2010


um dia, no meu quinto mês no Lar Benin, eu estava sentado numa pedra atrás das salas de aula quando Esther chegou. ela sentou ao meu lado em silêncio. tinha meu caderno de letras de música na mão.
— sinto como se não houvesse mais motivo para eu continuar vivo – eu disse, devagar. – não tenho família, sou sozinho. não tenho mais ninguém que conte histórias sobre quando eu era pequeno. – funguei um pouco.
Esther colocou os braços em volta de mim e me puxou para perto. ela me deu uma sacudida de leve para conseguir minha atenção completa antes de começar.
— pense em mim como sua família, sua irmã.
— mas eu não tinha irmã – respondi.
bom, agora você tem. sabe, é isso que é bonito em começar uma família nova. você pode ter outro tipos de parentes. – ela olhou para mim diretamente nos olhos, esperando que eu dissesse alguma coisa.
— ok, você pode ser minha irmã, provisoriamente – falei, enfatizando a última palavra.
— por mim tudo bem. então, amanhã você vem visitar sua irmã provisória, por favor? – ela cobriu o rosto como se fosse ficar triste se eu dissesse que não.
— ok, ok, não tem motivo para ficar triste – eu disse, e nós dois rimos um pouco.
a risada de Esther sempre me lembrou de Abigail, a garota com quem eu saía durante meus dois primeiros semestres na escola em Bo Town. às vezes eu queria que Esther fosse Abigail, para que pudesse falar com ela sobre antigamente, antes da guerra. queria que nós ríssemos com todo o nosso ser, por mais tempo e sem quaisquer preocupações, como tinha feito com Abigail, mas não podia mais fazer. ao final de cada risada havia sempre uma ponta de tristeza de que eu não conseguia escapar. às vezes eu observava Esther enquanto ela estava ocupada com a parte burocrática do trabalho. sempre que sentia meus olhos sobre ela, ela atirava um papel amassado na minha direção sem me olhar. eu sorria e guardava o pedaço de papel no meu bolso, fingindo que o papel em branco era um bilhete especial que ela tinha escrito para mim.
naquela tarde, enquanto Esther se afastava da pedra em que eu estava sentado, ela virou várias vezes para trás para acenar para mim, até que desapareceu atrás de um dos muros. sorri de volta e esqueci por um momento da minha solidão.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

esse é um dos trechos mais lindos desse livro, não sei porque
mas imaginei a cena detalhadamente, recomendo demais esse livro!

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