terça-feira, 7 de dezembro de 2010

História dos sentimentos


a base desta historinha, que adaptei, me mandou Martha Herzberg, terapeuta fantástica e amada amiga. segundo ela, o autor é anônimo, mas desconfio que foi dela essa deliciosa ideia.
os sentimentos humanos certo dia se reuniram para brincar. depois que o TÉDIO bocejou três vezes porque a INDECISÃO não chegava a conclusão nenhuma e a DESCONFIANÇA estava tomando conta, a LOUCURA propôs que brincassem de esconde-esconde. a CURIOSIDADE quis saber todos os detalhes do jogo, e a INTRIGA começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.
o ENTUSIASMO saltou de contentamento e convenceu a DÚVIDA e a APATIA, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. a VERDADE achou que isso de esconder não estava com nada, a ARROGÂNCIA fez cara de desdém pois a ideia não tinha sido dela, e o MEDO preferiu não se arriscar: “ah, gente, vamos deixar tudo como esta”, e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.
a primeira a se esconder foi a PREGUIÇA, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo a onde estava. o OTIMISMO escondeu-se no arco-íris, e a INVEJA se ocultou junto com a HIPOCRISIA, que sorrindo fingidamente, atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.
a GENEROSIDADE quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a CULPA ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma, a SENSUALIDADE se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o EGOÍSMO achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.
a MENTIRA disse para a INOCÊNCIA que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a PAIXÃO meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o ESQUECIMENTO já nem sabia o que estavam fazendo ali.
depois de contar até 99 a LOUCURA começou a procurar. achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o AMOR, com os olhos furados pelos espinhos.
a LOUCURA o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. desde então o AMOR é cego e a LOUCURA o acompanha.
juntos fazem a vida valer a pena – mas isso não é coisa para os medrosos nem para os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação.

- Lya Luft in Pensar é transgredir

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