quarta-feira, 20 de outubro de 2010


com essa maré toda contra, não tenho escrito absolutamente nada. é terrível. tu sabes como é, a gente fica pensando aquela porção de coisas destrutivas, que nunca mais vai conseguir, que secou completamente, etc. tenho algumas ideias, várias anotações, tudo meio caótico e super-desorganizado – mas acho tudo pálido, tudo insuficiente e inútil nesse momento que a gente está vivendo. ando me sentindo ex-escritor, ex-amigo de qualquer pessoa, ex-gente – me lembro sempre de teus versos (teu livro está sempre na minha cabeceira, sempre leio coisas antes de dormir, às vezes gravo, outro dia eu e um amigo fizemos um recital inteiro dos teus poemas, a boneca terminou em prantos): “iniciei mil vezes o diálogo. não há jeito. tenho me fatigado tanto todos os dias vestindo, despindo e arrastando amor, infância, sóis e sombras”. a verdade é que não me sinto capaz de nada. não é fossa. fossa dá ideia de uma coisa subjetiva e narcisista. são motivos bem concretos, que inclusive transcendem o plano pessoal. e tudo tão insolúvel que a gente só pode fugir, porque ficar não adianta nada. a minha maneira de fugir, tu sabes, é dormindo. andei dormindo até quinze horas por dia, durante quase duas semanas. nos contatos que tenho com gente da minha geração, ou de outras, mas unidos pela mesma lucidez, percebo de maneira intensa a mesma sensação de abandono e de inutilidade. sobretudo de impotência. o consumo de drogas como meio (ótimo) de alienação e como meio (falso) de libertação é uma coisa incrível, assustadora mesmo. a maconha rola em Porto Alegre, as “picadas” também, agora descobriram mescalina em Santa Catarina e uns conhecidos meus, pintores, estão fazendo tráfico e vendendo para toda a “classe artística” de PA. e o mais assustador nessa estória de drogas é que são consumidas justamente pela parte mais esclarecida da população, pelos que poderiam fazer alguma coisa, os outros, as camadas mais baixas, têm a televisão, as novelas, as revistinhas de amor. eu tenho o sono, talvez a fuga mais saudável, se bem que igualmente desesperadora.

- Caio Fernando Abreu

Nenhum comentário:

Postar um comentário